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domingo, 20 de março de 2011

DOMINGO DAS SANTAS RELÍQUIAS
2º DOMINGO DA GRANDE QUARESMA
20/03/2011

NO FINAL DA DIVINA LITURGIA REALIZAMOS
 UMA PROCISSÃO COM  AS SANTAS RELÍQUIAS E COM ELAS ABENÇOAMOS OS FIÉIS, QUE EM SEGUIDA VIERAM VENERÁ-LAS  









terça-feira, 15 de março de 2011

A data da Última Ceia


Como estamos á caminho da páscoa; vale a pena ler este artigo.  Ratzinger-Bento XVI

Passagem do livro “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição”

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 11 de março de 2011 - O livro do Papa “Jesus de Nazaré, Da entrada em Jerusalém até à Ressurreição” foi lançado nessa quinta-feira. Apresentamos a passagem “A data da Última Ceia”, do quarto capítulo do volume, divulgada por Agência Ecclesia e a Principia Editora (Portugal).
* * *
1. A data da Última Ceia
O problema da datação da Última Ceia de Jesus assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc 14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos trata-se de uma quinta-feira.
Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo a cronologia sinóptica –, Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de sexta-feira foi condenado à morte por Pilatos e sucessivamente, «pela hora tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado. O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na ma- nhã do «primeiro dia da semana», no domingo.
Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf. v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá de facto tido lugar precisamente no dia da festa.
Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.
Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.

Esta coincidência, teologicamente importante, de Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica. João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu carácter pascal redunda problemática.
Por isso desde há muito que se fazem tentativas para conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.
A senhora Jaubert baseia-se principalmente em dois textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus, que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente 13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.
Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra, simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.
Observa a estudiosa francesa que as cronologias referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece – segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à manhã de sexta-feira.
Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos, nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di- rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida, ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria depois adiado a crucifixão até sexta-feira.
No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados também noutros textos.
A isto, porém, é preciso responder que os vestígios da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus, de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades, como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.

Ilustrei esta tese de maneira particularmente detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade, mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e simplesmente possível acolhê-la.
Que dizer então? A avaliação mais cuidada de todas as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P. Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das fontes, que a decisão deve ser favorável a João.
João tem razão quando afirma que, no momento do processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi- do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto significa que Jesus morreu na altura em que se imola- vam no templo os cordeiros pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso, que tivessem reconhecido Je- sus como o autêntico Cordeiro, que precisamente assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro significado – tudo isso é simplesmente normal.
Resta a pergunta: mas, então, porque é que os sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição? Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar. Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14, 12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não seria mencionada a Páscoa.
Esta operação, apesar dos numerosos nomes importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da Ceia como não pertencente à Páscoa»
(A Marginal Jew, I, p. 398).

Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa.
Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.
Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu sentido pleno.
O primeiro testemunho desta visão unificadora do novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1, também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial. Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.
Com base nisto, pode-se compreender como a Última Ceia de Je- sus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.
Sirvamos a Cristo na pessoa dos pobres
Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo
 (Oratio 14, De pauperum amore, 38.40:PG 35,907.910)
(Séc.VI)
Diz a Escritura: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7). A misericórdia não é certamente a última das bem-aventuranças. Lemos também: Feliz de quem pensa no pobre e no fraco (Sl 40,2). E ainda: Feliz o homem caridoso e prestativo (Sl 111,5). E noutro lugar: O justo é generoso e dá esmola (Sl 36,26). Tornemo-nos dignos destas bênçãos, de sermos chamados misericordiosos e cheios de bondade.

Nem sequer a noite interrompa a tua prática da misericórdia. Não digas: “Vai e depois volta, amanhã te darei o que pedes”.Nada se deve interpor entre a tua resolução e o bem que vais fazer. Só a prática do bem não admite adiamento.

Reparte o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa os pobres e peregrinos (Is 58,7), com alegria e presteza. Quem se dedica a obras de misericórdia, diz o Apóstolo, faça-o com alegria (Rm 12,8). Essa presteza e solicitude duplicarão a recompensa da tua dádiva. Mas o que é dado com tristeza e de má vontade não se torna agradável nem é digno.

Devemos alegrar-nos, e não entristecer-nos, quando prestamos algum benefício. Diz a Escritura: Se quebrares as cadeias injustas e desligares as amaras do jugo (Is 58,6), isto é, da avareza e das discriminações, das suspeitas e das murmurações, que acontecerá? A tua recompensa será grande e admirável! Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há
de recuperar-se mais depressa (Is 58,8). E quem há que não deseje a luz e a saúde?

Por isso, se me julgais digno de alguma atenção, vós, servidores de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, em todas as ocasiões visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, acolhamos a Cristo, honremos a Cristo; não apenas oferecendo-lhe uma refeição, como fizeram alguns, não apenas ungindo-o com perfumes
como Maria, não apenas dando-lhe o sepulcro como José de Arimatéia, não apenas dando o necessário para o sepultamento como Nicodemos que dava a Cristo só uma parte do seu amor, nem, finalmente, oferecendo ouro, incenso e mira, como fizeram os magos, antes de todos esses. O Senhor do universo quer a misericórdia e não o sacrifício, e a compaixão tem muito maior valor que milhares de cordeiros gordos. Ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao deixarmos este mundo, eles nos recebam nas moradas eternas, juntamente com o próprio Cristo nosso Senhor, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém .
(Liturgia das Horas)

domingo, 13 de março de 2011


Carta de S. B. Gregorios III,
Patriarca de Antioquia e todo o Oriente,
De Alexandria e de Jerusalém,

(Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém, na foto: local da crucificação do Senhor

Graça divina e bênção apostólica para nossos irmãos bispos, os membros do Santo Sínodo, todo o clero e povo e os membros da nossa Igreja greco-melquita católica nos países árabes e em todo o mundo.   É um prazer espiritual me dirigir a vós por meio desta pequena carta, para incentivar o clero e o povo fiel da nossa Igreja a observar o mandamento sagrado de jejum.
Nos mandamentos da Igreja  eu encontro um programa das obrigações a serem cumpridas nestes dias abençoados. Esta é uma ocasião propícia para nos lembrarmos dessas regras tão raramente faladas, que são em número de sete:
1-    Assistir à (ou participar da) Divina Liturgia aos Domingos e nos dias santos de guarda.
2- Observar o jejum da Grande Quaresma e dos outros tempos prescritos (Nota do Tradutor: segundo a tradição oriental, “jejum” significa abster-se de comer e beber de meia-noite até o meio-dia, enquanto “abstinência”, como sabemos, é a restrição de alguns alimentos durante o dia)..
3- Observar a abstinência nas quartas e sextas-feiras.
4- Confessar, na presença de um sacerdote, pelo menos uma vez por ano.
5- Receber a Santa Comunhão, pelo menos, no Tempo Pascal.
6- Pagar o dízimo (ou a décima parte).
7- Abster-se de se casar (celebrar o casamento) em épocas quando não é permitido.   Vemos que estas regras têm um caráter geral, embora estejam em sua maioria ligadas à Grande Quaresma de quarenta dias que antecede a Páscoa e às outras estações de jejum do ano litúrgico (anterior ao Natal, aos Apóstolos e à Dormição.)
Como em todos os anos, gostaria de me referir ao cânon da Sagrada Quaresma que, de acordo com a disciplina, era praticado originalmente da seguinte forma:
- Os dias de jejum e abstinência são a quarta e sextas-feira da semana do Carnaval antes da semana da Tirofagia (N.T: abstinência dos laticínios), os períodos de segunda à sexta-feira de todas as semanas da Grande Quaresma e da Grande Semana Santa, salvo se um desses dias coincidem com a festa da Anunciação (25 de março).
- O Grande Sábado Santo é o único sábado do ano onde se deve jejuar, já que o jejum está proibido nos outros sábados do ano, pois o sábado (sabbat) é um dia santo ligado ao dia da Ressurreição (domingo).
- Os dias de abstinência são todos da Grande Quaresma, e isso compreende os domingos e toda a Grande Semana Santa, excetuando-se a festa da Anunciação, se ocorrer, e o Domingo de Ramos, dia em que é permitido comer peixes).
- A abstinência é a proibição de comer carne e derivados (como molho de carne) laticínios (leite, queijo e manteiga), ovo e peixe (este último é permitido em alguns dias: 25 de Março e Domingo de Ramos). Vinho e óleo/ azeite são permitidos em determinados dias.
- Nosso Santo Sínodo já mais de uma vez tratou da questão do jejum e da abstinência, principalmente entre 1949-1954. Após o Concílio Vaticano II, foi dada uma orientação geral, confiando a cada bispo local o dever de estabelecer a disciplina do jejum e da abstinência convenientes para sua Eparquia.
- Apesar de haver a possibilidade de diferentes dispensas, que foram postas em prática para situações  especiais na vida, a disciplina do jejum, segundo a tradição antiga mantém-se firme e, graças a Deus, muito bem praticado em muitas instituições monásticas religiosas, entre o clero e fiéis.   Os mandamentos da Igreja envolvem, mais do que a Grande Quaresma, outras obrigações. Exorto todos a observá-los, especialmente durante a Grande Quaresma, como se segue:
1- Participe da Divina Liturgia todos os domingos da Quaresma.
2- Pratique o sacramento da Penitência, ou seja, confesse-se; esse sacramento parece estar desaparecendo da espiritualidade e da prática de nossa vida cristã.
3- Prepare-se com fervor para a Santa Comunhão. Na verdade, a Santa Comunhão está se tornando uma espécie de cumprimento, externo e social; vemos que um número considerável de fiéis aproximam-se da Santa Mesa, sem, contudo, ter feito uma preparação interior adequada.
4- Pague o dízimo! Estamos incentivando o restabelecimento da prática dessa regra, que tem aspectos espiritual, bem como sociais e humanas. De fato, ao observar essa regra, estamos praticando a caridade aos pobres, enfermos, doentes, estudantes, desempregados e quem precisa e está em estado de penúria. Além disso, através do dízimo, apoiamos os projetos sociais, culturais e de saúde da nossa paróquia e comunidade. Além disso e acima de tudo, através do dízimo, nós colocamos em prática o mandamento de Nosso Senhor, e todos os valores espirituais e sociais do Evangelho.
Queridos irmãos e irmãs, através do jejum, oração, penitência, esmola, obras de caridade e misericórdia, estamos acompanhanhando as sofridas dores de parto de vários países árabes, abalados desde o início deste ano (2011) por acontecimentos pungentes. Assim, cooperamos para que o caminho da cruz de nosso povo, seus sofrimentos e sua resistência seja o caminho da ressurreição, através da realização da justiça social, da retidão no governo, do serviço para o bem-estar e desenvolvimento do cidadão árabe, bem como por seu progresso humano, espiritual e social na fé. Dessa forma, aqueles que governam e assumiram a responsabilidade em nossos países árabes, devem colocar em prática o que Jesus afirmou, manifestando o sentido e fim de sua Encarnação, de sua Paixão, de sua Morte sobre a Cruz, , de sua Redenção e de sua Ressurreição: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (João 10, 10).


DIVINA LITURGIA DO PRIMEIRO DOMINGO DA GRANDE QUARESMA
PROCISSÃO E BENÇÃO DOS SANTOS ÍCONES 












sexta-feira, 11 de março de 2011


     





Jorge de Nicomedia - (séc. IX)

Beijo a tua paixão,
com a qual fui libertado das minhas más paixões.
Beijo a tua Cruz,
com a qual condenaste o meu pecado
e me libertaste da condenação à morte.
Beijo aqueles cravos,
com que removeste o castigo da maldição.
Beijo as feridas dos teus membros,
com que foram curadas as feridas da minha rebelião.
Beijo a cana com que assinaste o atestado da minha libertação
e com que feriste a cabeça arrogante do dragão.
Beijo a esponja encostada aos teus lábios incontaminados,
com que a amargura da transgressão
me foi transformada em doçura.
Tivesse podido eu degustar aquele fel,
que dulcíssimo alimento não teria sido!
Tivesse podido eu tomar o vinagre,
que bebida agradável!
Aquela coroa de espinhos
teria sido para mim um diadema régio.
Aquelas cusparadas
me teriam ornado como esplêndidas pérolas.
Aquelas zombarias
me teriam ornado como sinal de profundo obséquio.
Aquelas bofetadas
me teriam glorificado como o prestígio mais alto.
Eu te beijo, Senhor,
e a tua paixão é o meu orgulho.
Beijo a lança que dilacerou o documento da minha dívida
e abriu a fonte da imortalidade.
Beijo o teu lado do qual jorraram os rios da vida
e brotou para mim o rio perene da imortalidade.
Beijo a tua mortalha com que me adornaste
tirando-me minhas vestes vergonhosas.
Beijo o preciosíssimo sudário de que te revestiste
para envolver-me na veste dos teus filhos adotivos.
Beijo o túmulo
no qual inauguraste o mistério da minha ressurreição
e me precedeste pela estrada que sai do Hades.
Beijo aquela pedra
com a qual me tiraste o peso do medo da morte.

Durante o período da Grande Quaresma a Igreja firmemente esforça-se em despertar em nós o sentimento de arrependimento. Nós somos tocados pelas missas, os cânones e também por uma parte das leituras do Antigo Testamento que são meios para conscientizarmo-nos de nossos pecados. Os exemplos que vem do Antigo Testamento nos advertem, indicando-nos através de sua experiência milenar, o único e abençoado caminho: o caminho ao encontro de Deus.
Através de diferentes dificuldades, prolongada escravidão, graves doenças, Deus conduziu o povo até a Sua Verdade. Todo o Antigo Testamento é a história da Verdade de Deus, que castiga punindo os pecados e que também abençoa. Porém mesmo depois de tantos castigos o povo judeu freqüentemente embrutecia seu coração e não queria compreender as ordens de Deus.
Mas um embrutecimento semelhante também é possível perceber em muitos de nós. Deus nos atinge com sofrimentos, derrama dificuldades sobre corações empedrados, para que eles possam ser arados e tornados adequados para receber a graça de Deus; isto é, muitas vezes nosso coração não é receptivo à sua graça, mesmo quando Deus de forma óbvia e evidente a está nos dando. Nós ainda somos dominados pelo medo animal — o medo da morte, mas será que vive em nós o medo do Juízo de Deus? Deus espera, para que nós enxerguemos nas dificuldades que nos rodeiam, a Sua Graça, e não apenas uma série de acasos.


Comparando assim o Antigo Testamento com o momento presente, nós percebemos que naquela época assim como agora, Deus preocupa-se com as Suas pessoas, não permitindo que elas pereçam na indefinição e à margem das leis, esforçando-se de todas as formas em levá-las ao arrependimento e de todos os meios chamando-as novamente para ligarem-se a Deus — Fonte de Vida. De fato o amor de Deus ultrapassa a compreensão humana! Seu amor estende-se a tal ponto, que "por causa de seus eleitos, por causa de uma pequena porção, Ele abençoa a todo o povo" "Uma semente sagrada — é a força de todo um povo" diz o profeta Isaías, graças a ela todo um reino se perpetuará; ela é como um sólido alicerce que deve ser construído como base de um povo. Assim Deus guiava Seus servos, se manifestando ora como um severo Juiz e Carrasco, ora como O que perdoa a tudo e O que abençoa — para o bem das pessoas, para firmar a verdade na Terra. (A verdade é uma outra face do amor, e é a sua força que a defende).
Revelando tanta preocupação sobre os seus servos, não se preocupa mais ainda o Senhor com seus filhos? O Antigo Testamento é servidão e o Novo Testamento é filiação. Nós já não somos servos na casa de Deus. O servo preocupa-se somente como agradar ao seu senhorio e, a relação com ele é medida por atos: enquanto o filho tem proximidade com seu pai, preocupa-se em não magoá-lo não só através de atos, mas até com intenções, para não perder o amor paterno; seu relacionamento mede-se com sentimentos e pensamentos. Mas àquele que muito for dado, muito será exigido. "Nós somos filhos de Deus, mas ainda não nos foi anunciado, o que seremos" — fala o apóstolo; a nós, muito é dado e depende de nossa vontade multiplicar o talento dado por Deus. Em nossa vontade está o desejo de sermos os guerreiros de Cristo, combatendo em nossos corações, este campo de lutas, pela verdade de Deus. Está dentro de nossa vontade dar um inicio abençoado — pois Deus "beija até as boas intenções" e o resto faremos com a ajuda da graça de Deus.
Como meio de combate existem muitas orações a Deus — momentos criativos, que nos tiram da vida mecânica e as quais em grandes quantidades nos oferece a Santa Igreja em tocantes missas durante a Grande Quaresma. A meta da luta — é conservar a paz espiritual. Quando a paz se instala em nosso coração, então nós colocamo-nos no caminho em direção a Deus. As condições na relação com Deus são tão maravilhosas, que elas por si só tornam-se as recompensas — o Reino de Deus dentro de nós. É para isso que nos chama o Senhor, para que nós aqui mesmo na Terra, em diferentes momentos conquistássemos para nós a eternidade. Amém.